É POSSÍVEL VIVER NESTE MUNDO SEM PECADO?

Antes do tudo, precisamos entender que Deus é Deus, que Deus é Amor e tudo criou por amor e para o amor e quando tudo criou, o pecado não existia; logo, precisamos entender também que nada nem ninguém foi criado para o pecado ou para pecar. O pecado é mal e tudo o que é mal não vem de Deus, porque Deus é inacessível ao mal (Cf. Tiag 1,13); desse modo, tudo o que é mal ofende à dignidade humana e divina. Por isso, todo pecado é desperdício, é lixo sem sentido algum, é o não ser, perdido em si mesmo.

Ora, a revelação divina nos ensina: “Então Deus disse: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança… E Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher… E Deus os abençoou…”. Ou seja, nós somos uma Palavra de Deus realizada naturalmente, porém, a caminho da Plenitude que é o próprio Deus. É como nos exorta são Tiago em sua epístola: “Toda dádiva boa e todo dom perfeito vêm de cima: descem do Pai das luzes, no qual não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade. Por sua vontade é que nos gerou pela palavra da verdade, a fim de que sejamos como que as primícias das suas criaturas”. (Tiag 1,17-18).

Caríssimos, a vida é um dom de Deus e todo dom de Deus neste mundo é bom é per-feito, isto é, precisa ser trabalhado artesanalmente até atingir o atributo divino, isto é, a Perfeição de Sua Bondade; é por isso que Deus nos sustenta na existência, requerendo de cada um de nós a devida correspondência às suas dádivas que todos os dias nos concede. Pela experiência que temos, o pecado é um não dado a Deus em todos os sentidos; sendo assim, compreendemos que o mal existe, mas não em si mesmo e por si mesmo, porque assim seria absoluto; mas, ele existe como não correspondência ao amor que Deus dispensa a cada uma de suas criaturas a todo instante do viver. Logo, o mal tem limite e o limite do mal é sua própria ruína, por não corresponder à Bondade Divina que traz em Si toda a felicidade de que precisamos.

ENTÃO, É POSSÍVEL VIVER NESTE MUNDO SEM PECADO?

Quando São João Batista apresentou Jesus à dois de seus discípulos, disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus”. (Jo 1,29b.37). Ora, os discípulos compreenderam muito bem essa apresentação, pois, São João Evangelista, que era um dos dois, inspirado pelo Espírito Santo, escreveu: “Filhinhos, ninguém vos seduza: aquele que pratica a justiça é justo, como também (Jesus) é justo. Aquele que peca é do demônio, porque o demônio peca desde o princípio. Eis por que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do demônio. Todo o que é nascido de Deus não peca, porque o germe divino reside nele; e não pode pecar, porque nasceu de Deus. É nisto que se conhece quais são os filhos de Deus e quais os do demônio: todo o que não pratica a justiça não é de Deus, como também aquele que não ama o seu irmão”. (1Jo 3,7-10).

Certa feita, Jesus instruiu seus discípulos, dizendo: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto. Vós já estais puros pela palavra que vos tenho anunciado. Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á. Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai, para que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos”. (Jo 15, 1-8).

São Paulo, compreendendo que o significado do discipulado de Cristo é viver a dimensão da fé em estado de graça, escreveu: “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma”. (1Cor 6,12). Creio que disse isso, porque certamente ouvira a Palavra do Senhor: “Em verdade, em verdade vos digo: todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo. Ora, o escravo não fica na casa para sempre, mas o filho sim, fica para sempre. Se, portanto, o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres”. (Jo 8,34-36). Creio também que seja por isso que Paulo dizia com a fé de quem ama a Deus e o obedece em tudo: “Sei viver na penúria, e sei também viver na abundância. Estou acostumado a todas as vicissitudes: a ter fartura e a passar fome, a ter abundância e a padecer necessidade. Tudo posso naquele que me conforta”. (Fil 4,13).

E ainda: “Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto do céu nos abençoou com toda a bênção espiritual em Cristo, e nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos. No seu amor nos predestinou para sermos adotados como filhos seus por Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua livre vontade, para fazer resplandecer a sua maravilhosa graça, que nos foi concedida por ele no Bem-amado. Nesse Filho, pelo seu sangue, temos a Redenção, a remissão dos pecados, segundo as riquezas da sua graça que derramou profusamente sobre nós, em torrentes de sabedoria e de prudência.” (Ef 1,3-8)

Portanto, é possível sim viver neste mundo sem pecado, isto é, em estado de graça, porque se não fosse possível, Deus jamais teria criado o homem à “sua imagem e semelhança”, muito menos teria criado o mundo e todas as outras criaturas; se não fosse possível, a Virgem Maria não teria sido concebida sem pecado e nós não teríamos sido redimidos pelo Sangue de Jesus; se não fosse possível, Jesus jamais teria dito: “sede santos como o vosso Pai do céu é Santo” ou ainda: “tudo é possível ao que crê”; se não fosse possível, a Igreja jamais teria proclamado a santidade de homens e mulheres ao longo de sua história.

Logo, não precisamos do pecado absolutamente para nada, ou seja, ele é perfeitamente dispensável, porque sem ele somos verdadeiramente felizes por vivermos segundo a Vontade de Deus; porém, temos que entender o que Jesus revelou: “Sem mim, nada podeis fazer”, ou seja, somos filhos e filhas de Deus e experimentamos a graça que Deus nos prodigalizou por Seu Filho, Jesus Cristo, Senhor e Salvador de nossa vida. Nele, por Ele e para Ele é possível sermos santos neste mundo.

“Além disso, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, eis o que deve ocupar vossos pensamentos. O que aprendestes, recebestes, ouvistes e observastes em mim, isto praticai, e o Deus da paz estará convosco”. (Fil 4,8-9).

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.