CRÔNICAS DE MINHA ALMA: A ORIGEM DO PECADO…

“Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom”. (Gn 1,31a).

Pesquisando na Sagrada Escritura sobre o pecado original percebi que ele não é de ordem natural, mas tem sua origem na desobediência dos anjos decaídos. Pois assim está escrito: “Ora, Deus criou o homem para a imortalidade e o fez à imagem de sua própria natureza (ou seja, para ser um só com Ele). É por inveja do demônio que a morte entrou no mundo, e os que pertencem ao demônio prová-la-ão”. (Sab 2,23-24).

De fato, a condição pecaminosa do demônio e seus sequazes é eterna por causa de sua natureza espiritual e não tem como reverter isso, porque é fruto de sua decisão livre e intencional de não amar e não servir a Deus definitivamente, ou seja, o demônio criou seu próprio reino, só que de infelicidade e miséria eterna, porque, com disse Jesus: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 3,5). Em outras palavras, ele quis ser como Deus por si mesmo (cf. Gen 3,1-3; Is 14,13-15; Ez 28,12b-19), isto é, sendo apenas uma criatura espiritual, não criado “à imagem e semelhança de Deus”, como o homem, se rebelou contra Deus. Ora, o nome desse pecado é desobediência, soberba, porque é impossível a uma criatura ser, por si mesma, como Deus. Assim, conhecemos que o pecado tem sua origem na queda dos anjos, e que passou para o homem também pela desobediência deste em aceitar as sugestões do maligno, todavia, esta falta do homem é passível de perdão e reparação, por causa da inferioridade da natureza humana e pelo o homem não ser culpado pela origem em si do pecado.

Desse modo, compreendemos o porquê da morte, ela é a punição para o pecado da soberba e todos os outros pecados mortais (cf. Rm 6,23). Quanto à morte temporal, ela só existe em função do julgamento que haveremos de ter, pois nenhum homem pode ver a Deus neste mundo e permanecer vivo (cf. Heb 9,27; Ex 33,20); enquanto que o demônio já foi julgado e condenado (cf. Jo 16,5-11). Isto porque fomos criados com uma natureza um pouco inferior à natureza dos anjos, mas dotados de alma imortal, criada “à imagem e semelhança de Deus”. Por outro lado, a morte eterna, significa a separação definitiva de Deus, e esta a experimenta quem, pelo pecado, insiste em não amar e não servir a Deus, como o fizeram os anjos rebeldes com seu chefe, o demônio.

Depois que Jesus veio e nos libertou do pecado (cf.1Jo 3,5-6; Rom 8,1-2), só é possível voltar ao pecado pela decisão consciente de cometê-lo, contrariando assim a liberdade interior que Deus nos dá pelo estado de comunhão com sua vontade. São Tiago em sua carta (cf. Tg 1,12-16) nos ensina que o pecado é concebido na mente humana a partir das concupiscências que são tendências, apegos à aquilo que é transitório, momentâneo, fugaz, etc.; ele não é algo aleatório ou que aparece do nada, ele é o mal cultivado pelo ser humano em suas decisões pré-concebidas. Por isso, o pecado é como um veneno letal que vai destruído aos poucos a vida de quem o pratica, até dar cabo dela. Isto porque o pecado, quando concebido e praticado, é uma espécie de mancha espiritual terrível que gruda na alma e passa a encobrir todas as suas boas aspirações; quem se deixa manchar por ele, vive o desespero que lhe é próprio, isto é, vive com uma espécie de tormento que causa todo tipo de mal estar, até atingir seu nível mais alto de turbulência que é a depressão e todos os distúrbios infernais que sufocam o ser humano.

Assim sendo, podemos afirmar que a expressão máxima do pecado é o ódio a Deus e às suas criaturas. São João, se referindo aos que cultivam este estado mórbido de alma, escreveu: “Não vos admireis, irmãos, se o mundo vos odeia. Nós sabemos que fomos trasladados da morte para a vida, porque amamos nossos irmãos. Quem não ama permanece na morte. Quem odeia seu irmão é assassino. E sabeis que a vida eterna não permanece em nenhum assassino”. (1Jo 3,13-15). Jesus ao falar a esse respeito, disse: “Se o mundo vos odeia, sabei que me odiou a mim antes que a vós. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia”. (Jo 15,18-19). Por isso, São João nos alerta: “Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai. Porque tudo o que há no mundo – a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida – não procede do Pai, mas do mundo. O mundo passa com as suas concupiscências, mas quem cumpre a vontade de Deus permanece eternamente”. (1Jo 2,15-17).

Vejamos o que diz ainda o Senhor sobre o mal do pecado, que é a causa da destruição humana e de todas as demais criaturas: “Ora, o que sai do homem, isso é que mancha o homem. Porque é do interior do coração dos homens que procedem: os maus pensamentos, devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez. Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem”. (Mc 7,20-23). Por isso, “Não procureis a morte por uma vida desregrada, não sejais o próprio artífice de vossa perda. Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma. Ele criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e a morte não é a rainha da terra, porque a justiça é imortal”. (Sab 1,12-15).

Por fim, como vimos, o pecado é uma chaga espiritual aberta na alma humana, cujo único remédio é a graça do perdão concedido por Deus através do Sacrifício expiatório do Seu Filho, Jesus Cristo, que por sua obediência amorosa se entregou ao Pai para a nossa salvação. Desse modo, mediante o Sacramento do Batismo, temos de volta o estado de graça, perdido pelo pecado original, pois é no Batismo que se dá o “novo nascimento” na ordem da graça e nossa entrada no Reino de Deus, cuja parte visível é a Igreja. É como escreveu São Paulo: “Fomos, pois, sepultados com Cristo na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova”. (Rm6,4).

Aqueles, porém, que mesmo depois de batizados, voltarem a cometer pecados mortais, precisam do Sacramento da Penitência para a expiação desses pecados. Para isto, o Senhor exige de tais penitentes, por meio desse Sacramento, o arrependimento sincero, a confissão dos pecados, o perdão sacramental, a penitência e a reparação necessárias, que não somente apaga e extingue todo pecado praticado, como também livra das consequências eternas que estes trariam.

Destarte, oremos com o seráfico pai São Francisco de Assis:

“Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa morte corporal
da qual nenhum homem vivente pode escapar.
Infelizes aqueles que morrem em pecado mortal;
bem-aventurados aqueles
que se encontram em tua santíssima vontade
porque a morte segunda não lhes fará mal.

Louvai e bendizei a meu Senhor
e agradecei e servi-o com grande humildade”.

(São Francisco de Assis).

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.

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