Category: Cantinho Franciscano


AS ADMOESTAÇÕES DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS

“Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Estas são as palavras de santa exortação de nosso reverendo pai São Francisco a todos os irmãos.” (Escritos de S. Francisco).

 

5. Admoestação: Que ninguém se ensoberbeça, mas antes se glorie na cruz do Senhor.

         Considera, ó homem, a que excelência te elevou o Senhor, criando-te e formando-te segundo o corpo à imagem do seu dileto Filho e, segundo o espírito, à sua própria semelhança. Entretanto, as criaturas todas que estão debaixo do céu, a seu modo, servem e conhecem e obedecem ao seu Criador melhor que tu. Não foram tampouco os espíritos malignos que o crucificaram, mas tu em aliança com eles o crucificaste e o crucificas ainda, quando te deleitas em vícios e pecados.

 

         De que, então, podes gloriar-te? Mesmo que fosses tão arguto e sábio a ponto de possuíres toda a ciência, saberes interpretar toda espécie de línguas e perscrutares engenhosamente as coisas celestes, nunca deverias gabar-te de tudo isso, porquanto um só demônio conhece mais as coisas da terra que todos os homens juntos, a não ser que alguém tenha recebido do Senhor um conhecimento especial da mais alta sabedoria. Do mesmo modo, se fosses mais belo e mais rico que todos, e até operasses maravilhas e afugentasses os demônios, tudo isso seria estranho a ti nem te pertenceria nem disto te poderias desvanecer. Mas numa só coisa podemos ‘gloriar-nos: de nossas fraquezas’ (2Cor 12,5), carregando dia a dia a dia a santa cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo”. (E. de S. Francisco).

 

         Com certeza São Francisco aprendeu muito de São Paulo, pois esse apóstolo assim se expressava: “Importa que me glorie? Na verdade, não convém! Passarei, entretanto, às visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado até o terceiro céu. Se foi no corpo, não sei. Se fora do corpo, também não sei; Deus o sabe. E sei que esse homem – se no corpo ou se fora do corpo, não sei; Deus o sabe-foi arrebatado ao paraíso e lá ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir. Desse homem eu me gloriarei, mas de mim mesmo não me gloriarei, a não ser das minhas fraquezas. Pois, ainda que me quisesse gloriar, não seria insensato, porque diria a verdade. Mas abstenho-me, para que ninguém me tenha em conta de mais do que vê em mim ou ouve dizer de mim. Demais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para me esbofetear e me livrar do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. Mas ele me disse: Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força. Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte”. (2Cor 12,1-10). A única glória verdadeira é a glória da Cruz do Senhor, ninguém chega à vida eterna sem passar pela cruz: "Em seguida, convocando a multidão juntamente com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me". (Mc 8,34). "Pois, quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo". (Lc 14,27).

 

         "Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo". (Gl 6,14). Por isso: “Uma só coisa peço ao Senhor e a peço incessantemente: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para admirar aí a beleza do Altíssimo e contemplar o seu santuário”. Glorificado sejas meu Senhor, agora e por toda eternidade! Amém!

Com Jesus e com Maria

Frei Fernando, OFMConv.

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“Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Estas são as palavras de santa exortação de nosso reverendo pai São Francisco a todos os irmãos.” (Escritos de S. Francisco).

 

3. Admoestação: Da Obediência Perfeita

“Diz o Senhor no Evangelho: ‘Quem não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo’ (Lc 14,33), e: ‘Quem quiser salvar sua alma, perdê-la-á’ (Mt 16,25)”. Abandona tudo quanto possui e perde o seu corpo aquele que a si mesmo abandona inteiramente à obediência nas mãos do seu prelado. E tudo o que faz e diz, sabendo que não contraria a vontade dele, e sendo bom o que faz, é obediência verdadeira. E se acaso o súdito vê algo melhor e mais útil à sua alma do que aquilo que o prelado ordena, sacrifique a Deus o seu conhecimento voluntariamente, e se aplique com firmeza a cumprir as ordens do prelado, pois nisto é que consiste a verdadeira obediência feita por amor, que satisfaz a Deus e ao bem do próximo.

 

Entretanto, se o prelado der ao súdito alguma ordem contrária à alma, este todavia não se separe dele, mas não é lícito obedecer-lhe. E se por esse motivo tiver de suportar perseguições da parte de alguém, que então o ame ainda mais por amor de Deus. Pois aquele que prefere aturar perseguições a querer ficar separado de seus irmãos, permanece verdadeiramente na perfeita obediência, porque “dá a sua vida pelos irmãos”. (Jo 15,13).

Há efetivamente muito religiosos que, sob o colorido de verem coisas preferíveis às que os prelados ordenam, “olham para trás” (Lc 9,62) e “voltam a vômito de sua vontade própria” (Pr 26,11). Esses tais são homicidas e, por seus maus exemplos causam a perdição de muitas almas. (Escritos de S. Francisco).

 

Prezados irmãos e irmãs, só obedece quem é livre; quem é escravo do que faz fora da graça de Deus, torna-se preso ao seu fazer pecaminoso e com isso enche-se de revolta e dor, jamais conhecera a misericórdia e a verdade. “E Jesus dizia aos judeus que nele creram: Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade e a verdade vos livrará. Replicaram-lhe: Somos descendentes de Abraão e jamais fomos escravos de alguém. Como dizes tu: Sereis livres? Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo. Ora, o escravo não fica na casa para sempre, mas o filho sim, fica para sempre. Se, portanto, o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres”.  (Jo 8,31-36).

 

O Padroeiro de nossa Província, São Maximiliano Maria Kolbe dizia: “Caso o meu prelado em algum momento me diga um ‘sim’ eu digo sim com ele; caso noutro me diga um ‘não’, também acolho o não em obediência a ele e não digo que errei, pois na obediência livre está a mão de Deus”.

 

Portanto, caríssimos irmãos e irmãs, a glória de Deus só é alcançada quando exercitamos com empenho essa virtude do Espírito Santo; pois, o próprio Senhor a exerceu até o fim de sua vida terrena como bem o disse São Paulo: "Embora fosse Filho de Deus, aprendeu a obediência por meio dos sofrimentos que teve". (Hb 5,8). E ainda: “Dedicai-vos mutuamente a estima que se deve em Cristo Jesus. Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz”. (Fl. 2,5-8).

Que venha o Reino, que venha a glória, aqui estamos Senhor à tua espera. Amém! Assim seja!

Com Jesus e com Maria

Frei Fernando,OFMConv.

“Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Estas são as palavras de santa exortação de nosso reverendo pai São Francisco a todos os irmãos.” (Escritos de S. Francisco).

 

2. Admoestação: Do mau da própria vontade (Eu).

 

“Disse o Senhor a Adão: ‘Podes comer (apropriar-se) do fruto de todas as árvores (existência) do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal’ (Gn 2,16-17). Podia, pois, Adão comer de toda árvore do paraíso e, enquanto nada fazia contra a obediência, não pecava. Come, porém, da árvore da ciência do bem aquele que se apropria de sua vontade como propriedade sua e se exalta dos bens que o Senhor diz e opera nele. Assim, atendendo às sugestões do diabo e transgredindo o mandamento, foi-lhe dado o fruto da ciência do mal. Donde é necessário suportar a pena”. (E. de S. Francisco).

 

         Caros irmãos e irmãs, o Mistério da Iniqüidade está presente em todo e qualquer lugar do nosso tempo; é preciso que pela fé entendamos também esse Mistério para sabermos combate-lo com o poder que Deus dispõe a nosso favor afim de que vençamos a nós mesmos e a todo o mal que se apresenta das mais diversas formas. Escrevendo sobre o mistério da iniqüidade assim se expressa São Paulo: “Ninguém de modo algum vos engane. Porque primeiro deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem da iniqüidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus.

 

Agora, sabeis perfeitamente que algo o detém, de modo que ele só se manifestará a seu tempo. Porque o mistério da iniqüidade já está em ação, apenas esperando o desaparecimento daquele que o detém. Então o tal ímpio se manifestará. Mas o Senhor Jesus o destruirá com o sopro de sua boca e o aniquilará com o resplendor da sua vinda. A manifestação do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda a sorte de portentos, sinais e prodígios enganadores. Ele usará de todas as seduções do mal com aqueles que se perdem, por não terem cultivado o amor à verdade que os teria podido salvar. Por isso, Deus lhes enviará um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro. Desse modo, serão julgados e condenados todos os que não deram crédito à verdade, mas consentiram no mal. Nós, porém, sentimo-nos na obrigação de incessantemente dar graças a Deus a respeito de vós, irmãos queridos de Deus, porque desde o princípio vos escolheu Deus para vos dar a salvação, pela santificação do Espírito e pela fé na verdade. Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes.

 

Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu consolação eterna e boa esperança pela sua graça, consolem os vossos corações e os confirmem para toda boa obra e palavra!” (2Ts 2).

 

         Filhos e filhas de Deus muito amados, que cultivemos a graça que recebemos do Senhor no batismo vivendo neste mundo como testemunhas fiéis do Seu Reino de amor e de justiça; como dizia São João Batista: “Convém que o Senhor cresça e que eu diminua”. Bem aventurado é todo aquele que consente que se realize em sua vida a vontade de Deus expressa nos Mandamentos e, como filhos da luz, possamos viver como São Paulo nos ensinou: “Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas, a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes, filhos de Deus íntegros no meio de uma sociedade depravada e maliciosa, onde brilhais como luzeiros no mundo, a ostentar a palavra da vida”. (Fl. 2,14s).

 

         A graça e a paz de Deus nosso Pai esteja com todos nós! Amém!

 

Com Jesus e com Maria

Frei Fernando,OFMConv.

 

“Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Estas são as palavras de santa exortação de nosso reverendo pai São Francisco a todos os irmãos.” (Escritos de S. Francisco).

 

         “As exortações ocupam um lugar de destaque entre os escritos de São Francisco, pois representam, no verdadeiro sentido da palavra, um espelho de perfeição para todo aquele que se sentir chamado para a forma franciscana de vida cristã, pois nelas Francisco retraça muitos aspectos particulares do conceito que forma o cristão ideal. Suas frases são simples, mas cheias de profunda sabedoria da vida, representam marcos inconfundíveis para uma doutrina franciscana sobre a virtude ou para uma ascética no espírito de São Francisco, além de fornecer-nos sempre novas facetas, de surpreendente profundeza, de vida espiritual deste homem de Deus.” (Escritos de S. Francisco).

 

I Admoestação: Do Corpo do Senhor.

         “Deus Pai habita numa luz inacessível” (1Tm 6.16), e: “Deus é espírito” (Jo 4,24) e “ninguém jamais viu a Deus” (Jo 1,18). Ora, se Deus é espírito, só em espírito pode ser visto e adorado (Cf. Jo 4,23); pois, “o espírito é que dá vida, a carne de nada serve” (Jo 6,63). Também o Filho, sendo igual ao Pai, não pode ser visto por alguém de modo diferente que o Pai e o Espírito Santo. Por isso sofrem danos todos aqueles que viram o Senhor Jesus Cristo em sua humanidade sem enxergá-lo segundo o espírito e a divindade e sem crer que Ele é o verdadeiro Filho de Deus. De igual modo sofrem danos todos aqueles que ­­­­­–­ embora vendo o sacramento do corpo de Cristo que, pelas palavras do Senhor, se torna santamente presente sobre o altar, sob as espécies de pão e vinho, nas mãos do sacerdote – não olham segundo o espírito e a divindade, nem crêem que se trata verdadeiramente do corpo e do sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Atesta-o pessoalmente o Altíssimo quando diz: “Este é o meu corpo e o sangue da nova Aliança” (Cf. Mc 14,22); e: “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue terá a vida eterna”.

 

         Por isso é o Espírito do Senhor, que habita nos seus fiéis, quem recebe o santíssimo corpo e sangue do Senhor (Cf. Jo 6,62). Todos aqueles que não participam desse espírito e no entanto ousam comungar, “comem e bebem a sua condenação” (1Cor 11,290. Portanto, “ó filhos dos homens, até quando tereis o coração duro?” (Sl 4,3). Por que não reconheceis a verdade “nem credes no Filho de Deus” (Jo 9,35)? Eis que Ele se humilha todos os dias (Fl 2,8); tal como na hora em que, “descendo do seu trono real” (Sb 18,5) para o seio da Virgem, vem diariamente a nós sob aparência humilde; todos os dias desce do seio do Pai sobre o altar, nas mãos do sacerdote. E como apareceu aos santos apóstolos em verdadeira carne, também a nós se nos mostra hoje no pão sagrado. E do mesmo modo que eles, enxergando sua carne, não viam senão sua carne, contemplando-o contudo com seus olhos espirituais creram nele como no seu Senhor e Deus (Cf. Jo 20, 28), assim também nós, vendo o pão e o vinho com os nossos olhos corporais, olhemos e creiamos firmemente que está presente o santíssimo corpo e sangue vivo e verdadeiro. E desse modo o Senhor está sempre com os seus fiéis, conforme Ele mesmo diz: “Eis que estou convosco até a consumação dos séculos”. (Mt 28,20). (Escritos de S. Francisco de Assis).

 

         Caríssimos irmãos e irmãs, crer no Corpo e Sangue do Senhor Jesus é participar do maior milagre de amor que se pode ter neste mundo, porque crer é pertencer, é amar Àquele que nos amou primeiro e que nos ama por toda a eternidade. Amém. Assim seja!

Com Jesus e com Maria

Frei Fernando,OFMConv.

 

7. Admoestação: Que a inteligência deve seguir a boa ação.

 

         “Diz o Apóstolo: ‘A letra mata, mas o espírito vivifica’ (2Cor 3,6). São mortos pela letra os que tão-somente querem saber as palavras, a fim de parecer mais sábios que os outros e poder adquirir grandes riquezas e dá-las aos parentes e amigos. São ainda mortos pela letra aqueles religiosos que não querem seguir o espírito das Sagradas Escrituras, mas só se esforçam por saber as palavras e interpreta-las aos outros. São, porém, vivificados pelo espírito das Sagradas Escrituras aqueles que tratam de penetrar mais fundo em cada letra que conhecem, nem atribuem o seu saber ao próprio eu, mas pela palavra e pelo exemplo o restituem a Deus, seu supremo Senhor, ao qual todo bem pertence”. (Escritos de S. Francisco).

 

         Não é sábio aquele que pensa ser sábio, mas aquele que faz da virtude da humildade seu escudo de proteção e se oferece a Deus como oferta viva por seu amor: “Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito”. (Rm 12,1-2).

 

Então, qual é a verdadeira sabedoria? “Quem dentre vós é sábio e inteligente? Mostre com um bom proceder as suas obras repassadas de doçura e de sabedoria. Mas, se tendes no coração um ciúme amargo e gosto pelas contendas, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Esta não é a sabedoria que vem do alto, mas é uma sabedoria terrena, humana, diabólica. Onde houver ciúme e contenda, ali há também perturbação e toda espécie de vícios. A sabedoria, porém, que vem de cima, é primeiramente pura, depois pacífica, condescendente, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, nem fingimento. O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz”. (Tg 3,13-18). O verdadeiro sábio é aquele que serve: "Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em redenção por muitos". (Mc 10,45).

 

Vejamos agora o testemunho de São Paulo a este respeito: "Também eu, quando fui ter convosco, irmãos, não fui com o prestígio da eloqüência nem da sabedoria anunciar-vos o testemunho de Deus. Julguei não dever saber coisa alguma entre vós, senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. Eu me apresentei em vosso meio num estado de fraqueza, de desassossego e de temor. A minha palavra e a minha pregação longe estavam da eloqüência persuasiva da sabedoria; eram, antes, uma demonstração do Espírito e do poder divino, para que vossa fé não se baseasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus. Entretanto, o que pregamos entre os perfeitos é uma sabedoria, porém não a sabedoria deste mundo nem a dos grandes deste mundo, que são, aos olhos daquela, desqualificados. Pregamos a sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que Deus predeterminou antes de existir o tempo, para a nossa glória. Sabedoria que nenhuma autoridade deste mundo conheceu (pois se a houvessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória). É como está escrito: Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Todavia, Deus no-las revelou pelo seu Espírito, porque o Espírito penetra tudo, mesmo as profundezas de Deus. Pois quem conhece as coisas que há no homem, senão o espírito do homem que nele reside? Assim também as coisas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus.

 

Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas sim o Espírito que vem de Deus, que nos dá a conhecer as graças que Deus nos prodigalizou e que pregamos numa linguagem que nos foi ensinada não pela sabedoria humana, mas pelo Espírito, que exprime as coisas espirituais em termos espirituais. Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar. O homem espiritual, ao contrário, julga todas as coisas e não é julgado por ninguém. Por que quem conheceu o pensamento do Senhor, se abalançará a instruí-lo (Is 40,13)? Nós, porém, temos o pensamento de Cristo". (1Cor 2).

 

A todos vós graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e de Jesus Cristo seu Filho Unigênito, no poder do Espírito Santo. Amém!

 

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.

 

Foi por meio do Crucifixo de São Damião que Jesus falou a Francisco: 

"Francisco, reconstrói minha Igreja".

Um artista desconhecido, natural de Úmbria, pintou o crucifixo no século XII.
Foi pintado num pano colado sobre madeira (nogueira). Tem 1,90m de altura, 1,20m de largura e 12cm de espessura. O mais provável é que tenha sido pintado para ser posto no altar da Igreja de São Damião.

Em 1257, as Clarissas deixaram a Igreja de São Damião e foram para a de São Jorge, levando o crucifixo com elas. A cruz, cuidadosamente conservada por 700 anos, foi mostrado ao público pela primeira vez, na Semana Santa de 1957, sobre o novo altar da Capela de São Jorge na Basílica de Santa Clara de Assis.

 

A FIGURA DO CRISTO


A figura central do ícone é o Cristo, não só por seu tamanho, mas também por ser o Cristo a figura luminosa que domina a cena e transmite luz para as demais figuras. "Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida" (Jo 8, 12). Os olhos de Jesus estão abertos: Ele olha para o mundo que salvou. Ele vive e é eterno. A veste de Jesus é um simples pano sobre o quadril – um símbolo tanto do Sumo Sacerdote como de Vítima. O tórax e o pescoço são muito fortes. Atrás dos braços esticados do Cristo está seu túmulo vazio, representado pelo rectângulo preto.

  

O MEDALHÃO E A INSCRIÇÃO

A ascensão é retractada no círculo vermelho: Cristo está saindo dele segurando uma cruz dourada que, agora é Seu símbolo de realeza. As vestimentas são douradas, símbolo de majestade e vitória. A estola vermelha é um sinal de sua autoridade e dignidade supremas exercidas no amor. Anjos lhe dão boas-vindas no Reino dos Céus. IHS são as três primeiras letras do nome de Jesus em grego. NAZARÉ é o Nazareno. 

 

A MÃO DO PAI


De dentro do semicírculo, na extremidade mais alta da cruz, Ele, que nenhum olho viu, se revela numa benção. Esta benção é dada pela mão direita de Deus, com o dedo estendido.

 

A VIDEIRA MÍSTICA


Em torno da cruz, há ornamentos caligráficos que podem significar a videira mística, "Eu sou a videira, vós os ramos…" (Jo 15, 5), e faz relação com "ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos" (Jo 15, 13). Na base da cruz, há algo que parece ser uma pedra – o símbolo da Igreja. As conchas do mar são símbolos de eternidade – um mistério, guardado no rosto e infinito mar da eternidade, nos é revelado.

 

MARIA E JOÃO

Como no evangelho de São João, Maria e João são colocados lado a lado. O manto de Maria é branco, significando vitória (Ap 3, 5), purificação (Ap 7, 14) e boas obras (Ap 19, 8). As pedras preciosas no manto dizem respeito às graças do Espírito Santo.
O vermelho escuro usado indica intenso amor, enquanto a veste interna na cor purpúrea lembra a Arca da Aliança (Ex 26, 1-4). A mão esquerda de Maria está no rosto, retractando a aceitação do amor de João, e sua mão direita aponta para João, enquanto seus olhos proclamam a aceitação das palavras de Cristo: "Mulher, eis aí teu filho" (Jo 19, 26). O sangue goteja em João neste momento. O manto de João é cor de rosa que indica sabedoria eterna, enquanto sua túnica é branca – pureza. Sua posição é entre Jesus e Maria, o discípulo amado por ambos. Ele está olhando para Maria, aceitando as palavras de Jesus: "Eis aí tua mãe" (Jo 19, 27).
 

 

NÚMEROS


Há 33 figuras no Ícone: duas imagens de Cristo, 1 mão do Pai, 5 figuras maiores, 2 figuras menores, 14 anjos, 2 pessoas desconhecido nas mãos de Jesus, 1 menino pequeno, 6 desconhecidas ao fundo da Cruz e um galo. Há 33 cabeças em torno da cruz, dentro das conchas, e sete ao redor da auréola.

 

AS OUTRAS FIGURAS MAIORES


Maria Madalena

Maria Madalena, que era considerada por Jesus de uma forma muito especial, está junto à cruz. Sua mão está no queixo, indicando um segredo "Ele ressuscitou". Sua veste tem cor escarlate, que simboliza amor, e seu manto azul intensifica este símbolo.
Maria de Cleófas

Usa veste cor castanha, símbolo de humildade, e seu manto verde claro – esperança. Sua admiração por Jesus é demonstrada no gesto de suas mãos.
O Centurião de Cafarnaum

Ele segura, na mão esquerda, um pedaço de madeira representado sua participação na construção da sinagoga (Lc 7, 1-10). As crianças ao lado é o seu filho curado por Jesus. As três cabeças atrás do menino mostram: "e creu tanto ele, como toda a sua casa" (Jo 19, 28-30). Tem três dedos estendidos, símbolo da Trindade, e os outros dois fechados, simbolizando o mistério das duas naturezas de Jesus Cristo (divina e humana). "Este homem era verdadeiramente o filho de Deus" (Mc 15, 39)

 

FIGURAS MENORES


Longinus

O soldado romano que feriu o lado de Jesus com uma lança.
Estefânio

A tradição dá este nome ao soldado que ofereceu a Jesus uma esponja encharcada com vinagre após Ele ter dito "tenho sede" (Jo 19, 28-30)

 

OS SANTOS DESCONHECIDOS


Embaixo dos pés de Jesus, há seis santos desconhecidos que estudiosos afirmam ser Damião, Rufino, Miguel, João Baptista, Pedro e Paulo, todos patronos de igrejas na área de Assis. São Damião era o patrono da igreja que alojou a cruz e São Rufino, o patrono de Assis. Essa parte da pintura está muito danificada e não permite uma adequada identificação.

 

OS ANJOS QUE DISCUTEM


Há dois grupos de anjos – que animadamente discutem as cenas que se desenrolam diante deles.
"Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16)

 

O SEPULCRO

Como foi mencionado anteriormente, atrás de Cristo está o seu túmulo aberto. Cristo está vivo e venceu a morte. O vermelho do amor supera o negro da morte. Os gestos de mão indicam fé, a fé dos santos desconhecidos. Seriam Pedro e João junto ao sepulcro vazio? (Jo 20, 3-9)

 

O GALO

 

Em primeiro lugar, a inclusão do galo recorda a negação de Pedro, que depois chorou amargamente. Em segundo, o galo proclama novo despertar do Cristo ressuscitado, Ele que é a verdadeira luz (1 Jo 2, 8). "Mas sobre vós que temeis o meu nome, levantar-se-á o Sol de Justiça que traz a salvação em seus raios" (Mt 3, 20)

 

O FORMATO DA CRUZ

 

O formato tradicional da cruz alterado para permitir ao artista a inclusão de todos aqueles que participaram da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. À direita da cruz está o ladrão bom, chamado tradicionalmente Dismas; à esquerda está o ladrão mau.

 

 

 

 “Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Estas são as palavras de santa exortação de nosso reverendo pai São Francisco a todos os irmãos.” (Escritos de S. Francisco).

 

6. Admoestação: Da imitação de Cristo.

 

        “Consideremos todos, meus irmãos, o Bom Pastor que, para suas ovelhas, sofreu a paixão da cruz. As ovelhas do Senhor seguiram-no na tribulação, na perseguição, no opróbrio, na fome, na sede, na enfermidade, na tentação e em todo o mais, e receberam por isso do Senhor a vida eterna. É pois uma grande vergonha para nós outros servos de Deus, terem os santos praticado tais obras, e nós queremos receber honra e glória somente por contar e pregar o que eles fizeram.” (Escritos de S. Francisco).

 

        Caríssimos irmãos e irmãs, quem experimenta as coisas de Deus dá testemunho delas. A fé, mais do que um dom, é uma graça do Espírito Santo que nos leva a testemunhar as graças recebidas ou ainda, ela é a comprovação de que estamos unidos a Deus e por Ele conduzidos e que nossas ações são feitas em Deus, por Deus e para Deus. Testemunhar é, pois, um ato de quem vive em Deus as virtudes concedidas por Ele para que comprovemos os frutos do seu amor: “Porque é gratuitamente que fostes salvos mediante a fé. Isto não provém de vossos méritos, mas é puro dom de Deus. Não provém das obras, para que ninguém se glorie. Somos obra sua, criados em Jesus Cristo para as boas ações, que Deus de antemão preparou para que nós as praticássemos”. (Ef. 2,8-10). E ainda, quem ressuscitou com Cristo dá o testemunho dessa ressurreição: “Assim reunidos, eles o interrogavam: Senhor é porventura agora que ides instaurar o reino de Israel? Respondeu-lhes ele: Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder, mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os confins do mundo”. (At. 1,8-10).

 

        Quando São Francisco diz: “É uma grande vergonha para nós outros servos de Deus, terem os santos praticado tais obras, e nós queremos receber honra e glória somente por contar e pregar o que eles fizeram”, ele se refere ao testemunho que cada um de nós temos para dar e não damos e assim deixamos de cumprir a nossa missão de conviver com Deus e no seio da humanidade sendo transparência dessa sua presença divina em nós, pois uma vez que somos seus filhos e filhas, somos também testemunhas fiéis do que Deus opera no meio de nós: “Assim, meus caríssimos, vós que sempre fostes obedientes, trabalhai na vossa salvação com temor e tremor, não só como quando eu estava entre vós, mas muito mais agora na minha ausência. Porque é Deus quem, segundo o seu beneplácito, realiza em vós o querer e o executar. Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas, a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes, filhos de Deus íntegros no meio de uma sociedade depravada e maliciosa, onde brilhais como luzeiros no mundo, a ostentar a palavra da vida”. (Fl 2,12-16 a).

 

        Portanto, imitar Jesus segundo esta admoestação é fazer o que Ele fez conforme Ele mesmo nos ensinou: "Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai". (Jo 14,12) ou ainda conforme São João: "aquele que afirma permanecer nele ( em Cristo) deve também viver como ele viveu". (1Jo 2,6).

 

        Que o Deus da esperança que vos cumula de toda graça e paz em vossa fé, esteja sempre convosco. Amém! Assim seja!

 

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv

 

 

 

 

“Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Estas são as palavras de santa exortação de nosso reverendo pai São Francisco a todos os irmãos.” (Escritos de S. Francisco).

 

5. Admoestação: Que ninguém se ensoberbeça, mas antes se glorie na cruz do Senhor.

 

         Considera, ó homem, a que excelência te elevou o Senhor, criando-te e formando-te segundo o corpo à imagem do seu dileto Filho e, segundo o espírito, à sua própria semelhança. Entretanto, as criaturas todas que estão debaixo do céu, a seu modo, servem e conhecem e obedecem ao seu Criador melhor que tu. Não foram tampouco os espíritos malignos que o crucificaram, mas tu em aliança com eles o crucificaste e o crucificas ainda, quando te deleitas em vícios e pecados.

 

        De que, então, podes gloriar-te? Mesmo que fosses tão arguto e sábio a ponto de possuíres toda a ciência, saberes interpretar toda espécie de línguas e perscrutares engenhosamente as coisas celestes, nunca deverias gabar-te de tudo isso, porquanto um só demônio conhece mais as coisas da terra que todos os homens juntos, a não ser que alguém tenha recebido do Senhor um conhecimento especial da mais alta sabedoria. Do mesmo modo, se fosses mais belo e mais rico que todos, e até operasses maravilhas e afugentasses os demônios, tudo isso seria estranho a ti nem te pertenceria nem disto te poderias desvanecer. Mas numa só coisa podemos ‘gloriar-nos: de nossas fraquezas’ (2Cor 12,5), carregando dia a dia a dia a santa cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo”. (E. de S. Francisco).

 

        Com certeza São Francisco aprendeu muito de São Paulo, pois esse apóstolo assim se expressava: “Importa que me glorie? Na verdade, não convém! Passarei, entretanto, às visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado até o terceiro céu. Se foi no corpo, não sei. Se fora do corpo, também não sei; Deus o sabe. E sei que esse homem – se no corpo ou se fora do corpo, não sei; Deus o sabe-foi arrebatado ao paraíso e lá ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir. Desse homem eu me gloriarei, mas de mim mesmo não me gloriarei, a não ser das minhas fraquezas. Pois, ainda que me quisesse gloriar, não seria insensato, porque diria a verdade. Mas abstenho-me, para que ninguém me tenha em conta de mais do que vê em mim ou ouve dizer de mim. Demais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para me esbofetear e me livrar do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. Mas ele me disse: Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força. Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte”. (2Cor 12,1-10). A única glória verdadeira é a glória da Cruz do Senhor, ninguém chega à vida eterna sem passar pela cruz: "Em seguida, convocando a multidão juntamente com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me". (Mc 8,34). "Pois, quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo". (Lc 14,27).

 

        "Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo". (Gl 6,14). Por isso: “Uma só coisa peço ao Senhor e a peço incessantemente: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para admirar aí a beleza do Altíssimo e contemplar o seu santuário”. Glorificado sejas meu Senhor, agora e por toda eternidade! Amém!

 

Paz e Bem!

Frei Fernando, OFMConv

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Nascido no coração da Itália, nos últimos vinte anos do século XII (fim de 1181 ou início de 1182), filho do rico proprietário e comerciante de tecidos Pedro de Bernardone e de Joana, chamada Pica, seu nome batismal – João – foi logo mudado para Francisco ("francês", nome já em uso, mas não muito difundido na Itália) pelo pai, ao voltar dos seus negócios na França. A mãe, muito piedosa, cuidou de sua primeira formação religiosa.  

  

O Santo aprendeu a ler e escrever na escola paroquial de São Jorge, em Assis, e completou sua modesta cultura com elementos de cálculo, de poesia e música, adquirindo também uma escassa noção da língua francesa (provençal) bem como de contos e lendas de cavalaria. De gênio perspicaz e muito boa memória, Francisco adquirirá, mais tarde, uma discreta cultura religiosa, lendo e meditando. Filho de rica família burguesa, com um pai ambicioso, que pretendia alargar no exterior a área do seu comércio, o ambiente familiar de Francisco foi aquele típico da classe média da sociedade italiana da época, em escalada civil e política, ávida de bem-estar e liberdade, até a conquista de um título de nobreza para equiparar-se aos "maiores", que pairavam acima da massa dos pobres e "menores".

 

Francisco, largamente dotado de inteligência, ambicioso e ativo, no primeiro período de vinte e cinco anos de vida "no século" (1182-1207), tentou pessoalmente todas estas vias de subida e de glória mundana.

 

Associado, por volta dos 14 anos, ao trabalho paterno na artes dos mercadores (1196), exerceu com competência aquela arte, atento aos lucros, embora não fosse bom administrador destes. Com efeito, filho primogênito (com um só irmão menor, Ângelo), aclamado rei das festas e da juventude assisiense, gastava profusamente as riquezas paternas, vestindo roupas curiosas e vistosas, entretendo-se em noites de gala entre músicas e cantos. Tolerado com indulgência pelos pais naquelas despesas "principescas", era admirado especialmente pela mãe e pelos amigos por suas boas qualidades naturais e morais, nobreza de palavras e de trato, generosidade com os pobres e singular integridade dos costumes (2Cel,3).

 

Vivaz observador, bem como participante da conquista da liberdade cívica na luta contra o feudatário imperial de Spoleto (1198), tomou parte ativa, aos vinte anos, na guerra comunal de Assis contra Perúgia (1202) e caiu prisioneiro dos peruginos. Libertado após um ano de prisão e provado por longa doença, o mundo começou a parecer-lhe diferente e estranho. Mas depois de certo tempo, restabelecido da doença e atraído por novos sonhos de glória, decidiu ir até as Apúlias para a conquista do título de cavaleiro (1205). A viagem de Francisco foi, contudo, interrompida em Spoleto, a sua "estrada de Damasco", onde o Senhor o convidava, em sonho, a entrar na companhia de um senhor mais nobre (2Cel,5-6).

 

Voltando a Assis, com o presságio de "tornar-se um grande príncipe" (2Cel,6), afasta-se logo da companhia dos amigos, entretendo-se longamente em oração e lágrimas numa gruta solitária; depois de vencer sua extrema repugnância pela lepra, com um beijo num leproso, é atingido pela "iluminação" do Senhor na primeira aparição do Crucificado que lhe imprime no coração o amor e o pranto pela paixão (LM, I,5). Francisco aplica-se assiduamente ao serviço dos leprosos, multiplicando as esmolas aos pobres, aos sacerdotes e às igrejas pobres. Pouco depois, em oração na igrejinha de São Damião, a voz do Crucificado, convida-o a "reparar a sua Igreja, que está em ruínas" (LM,II,1).

 

Revestido de uma pobre túnica, assinalada por uma cruz, e proclamando-se o "arauto do grande rei", ele passa um biênio de vida penitente e eremítica, entregue à oração e a serviços humildes, por breve tempo também, num mosteiro beneditino. Depois, interpretando literalmente o convite do Crucificado, empenha-se na restauração material de três igrejas de Assis: São Damião, São Pedro della Spina e Santa Maria dos Anjos, chamada Porciúncula.

À espera de nova iluminação divina, que veio logo depois da última restauração, quando escutou o Evangelho do envio e da pobreza dos Apóstolos, na igreja da Porciúncula (cerca de 24 de fevereiro de 1208), Francisco pediu explicação ao sacerdote a respeito do referido Evangelho e, nele reconheceu com alegria a própria vocação e missão (Mt 10;Lc 9,10). Executando à letra aquelas       

 

disposições, vestiu-se de hábito minorítico: uma túnica em forma de cruz, um cordão branco, pés descalços e, certamente, com permissão do bispo, começou a pregar sobre paz e penitência, com grande fervor de espírito, na igreja de São Jorge (1 Cel, 23).

 

Seguiram-no o rico Bernardo de Quintavalle e o doutor em Direito, Pedro Cattani, aos quais se juntaram o jovem Egídio e mais oito companheiros (1208). Um ano depois, o grupo foi aprovado em seu modo de vida comunitária e apostólica pelo Papa Inocêncio (1209). Era a Primeira Ordem, a "Ordem dos Menores". Instituiu também a Segunda (Damas Pobres de São Damião ou Clarissas) e a Terceira Ordem.

 

Já doente, o próprio Santo, após o retorno do Oriente, providenciou para a Ordem a direção ativa de um vigário, na pessoa de Frei Elias de Assis (1221-1227), e a Regra definitiva (1223). Encaminhava-se ao último período da sua vida, num crescendo de ascensões místicas e no desejo de mais íntima participação e conformidade com o Crucificado.

 

No verão de 1224, retirou-se para o Monte Alverne, onde, entre prolongadas orações, meditações e jejuns, apareceu-lhe o próprio Cristo Crucificado, na figura de um Serafim alado e flamejante, que lhe imprimiu na carne os estigmas vivos da paixão: feridas abertas e sangrentas, com pregos de longas pontas dobradas (constituídas pela própria carne) nas mãos e nos pés, além da chaga no peito.

 

Descendo do Monte Alverne, Francisco transcorreu seu último biênio de vida numa contínua paixão de doenças e dores, afligido por uma grave oftalmia contraída no Oriente. Entre o fim de 1224 e os primeiros dias de 1225, "certificado" pelo Senhor de sua morte próxima e do prêmio eterno, num ímpeto de exaltação mística pela obra da criação, ditou aos companheiros o "Cântico do irmão Sol e de todas as criaturas" (LP, 43-45).

 

Na Porciúncula, meditando a narração joanina da Paixão e celebrando com seus religiosos a lembrança da última ceia do Senhor, invocando a "irmã morte" e cantando o Salmo "Em voz alta ao Senhor eu imploro… Muitos justos virão rodear-me pelo bem que fizeste por mim" expirou na tarde de Sábado de 3 de outubro de 1226, com a idade de 44 anos.

 

Sobre a terra nua, apresentando seus estigmas, vistos então por centenas de frades e leigos, "parecia um verdadeiro crucificado deposto na cruz" (Frei Leão em Salimbene, 195; cf. 1Cel,112).

 

No dia seguinte, Domingo, pela manhã, com solene procissão do clero e povo, seu corpo foi levado à igrejinha de São Jorge, dentro dos muros da cidade, ficando aí guardado por cerca de quatro anos, onde também o Santo foi canonizado, em 16 de Julho de 1228.

 

O corpo foi transladado depois (25.05.1230) para a nova Basílica de São Francisco, erguida por vontade de Gregório IX e por mérito de Frei Elias, sobre a colina do Paraíso.

 

(FRADES MENORES CONVENTUAIS. História e Vida: 1209-1995, p. 16-21)

 

 

       

  5. Admoestação: Que ninguém se ensoberbeça, mas antes se glorie na cruz do Senhor.

         Considera, ó homem, a que excelência te elevou o Senhor, criando-te e formando-te segundo o corpo à imagem do seu dileto Filho e, segundo o espírito, à sua própria semelhança. Entretanto, as criaturas todas que estão debaixo do céu, a seu modo, servem e conhecem e obedecem ao seu Criador melhor que tu. Não foram tampouco os espíritos malignos que o crucificaram, mas tu em aliança com eles o crucificaste e o crucificas ainda, quando te deleitas em vícios e pecados.

 

        De que, então, podes gloriar-te? Mesmo que fosses tão arguto e sábio a ponto de possuíres toda a ciência, saberes interpretar toda espécie de línguas e perscrutares engenhosamente as coisas celestes, nunca deverias gabar-te de tudo isso, porquanto um só demônio conhece mais as coisas da terra que todos os homens juntos, a não ser que alguém tenha recebido do Senhor um conhecimento especial da mais alta sabedoria. Do mesmo modo, se fosses mais belo e mais rico que todos, e até operasses maravilhas e afugentasses os demônios, tudo isso seria estranho a ti nem te pertenceria nem disto te poderias desvanecer. Mas numa só coisa podemos ‘gloriar-nos: de nossas fraquezas’ (2Cor 12,5), carregando dia a dia a dia a santa cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo”. (E. de S. Francisco).

 

        Com certeza São Francisco aprendeu muito de São Paulo, pois esse apóstolo assim se expressava: “Importa que me glorie? Na verdade, não convém! Passarei, entretanto, às visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado até o terceiro céu. Se foi no corpo, não sei. Se fora do corpo, também não sei; Deus o sabe. E sei que esse homem – se no corpo ou se fora do corpo, não sei; Deus o sabe-foi arrebatado ao paraíso e lá ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir. Desse homem eu me gloriarei, mas de mim mesmo não me gloriarei, a não ser das minhas fraquezas. Pois, ainda que me quisesse gloriar, não seria insensato, porque diria a verdade. Mas abstenho-me, para que ninguém me tenha em conta de mais do que vê em mim ou ouve dizer de mim. Demais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para me esbofetear e me livrar do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. Mas ele me disse: Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força. Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte”. (2Cor 12,1-10). A única glória verdadeira é a glória da Cruz do Senhor, ninguém chega à vida eterna sem passar pela cruz: "Em seguida, convocando a multidão juntamente com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me". (Mc 8,34). "Pois, quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo". (Lc 14,27).

 

        "Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo". (Gl 6,14). Por isso: “Uma só coisa peço ao Senhor e a peço incessantemente: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para admirar aí a beleza do Altíssimo e contemplar o seu santuário”. Glorificado sejas meu Senhor, agora e por toda eternidade! Amém!

 

Paz e Bem!

 

Frei Fernando, OFMConv.

 

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